Do ponto de vista neurocientífico e epistemológico, é possível sustentar uma posição realista segundo a qual a ciência não cria a estrutura do mundo, mas progressivamente a revela por meio de modelos cada vez mais refinados. Essa perspectiva parte de dois pressupostos centrais: (1) existe uma ordem ontológica independente da mente humana e (2) o cérebro humano é um sistema biológico especializado em inferir padrões dessa ordem.
O cérebro não acessa a realidade de maneira direta. Ele opera por meio de processos inferenciais. Modelos contemporâneos, como o arcabouço de processamento preditivo (predictive processing), descrevem o encéfalo como um sistema hierárquico de geração de hipóteses. Redes corticais constroem previsões sobre o ambiente; essas previsões são constantemente confrontadas com sinais sensoriais ascendentes. O erro de predição, diferença entre expectativa e dado sensorial, impulsiona a atualização do modelo interno. Assim, conhecer é reduzir erro.
Nesse sentido, a atividade científica pode ser compreendida como uma extensão cultural desse mesmo mecanismo neurobiológico. O método científico institucionaliza aquilo que o cérebro já faz individualmente: formular hipóteses, testá-las contra evidências, corrigir discrepâncias e refinar representações. A diferença é que a ciência distribui esse processo em uma comunidade intersubjetiva, aumentando a precisão e reduzindo vieses individuais.
Sob essa ótica, leis físicas, estruturas moleculares ou princípios biológicos não passam a existir quando são descritos. Eles precedem a descrição. A descoberta da dupla hélice do DNA não criou sua conformação estrutural; apenas tornou explícita uma organização molecular que já operava na biologia há bilhões de anos. O mesmo se aplica às constantes físicas, aos campos gravitacionais ou aos circuitos neurais. A ciência revela regularidades que já estruturavam a realidade antes de serem conceitualizadas.
Do ponto de vista neurobiológico, isso é coerente com a noção de que o cérebro evoluiu para detectar invariantes ambientais. A seleção natural favoreceu sistemas nervosos capazes de extrair padrões estáveis de um mundo igualmente estruturado. Se não houvesse regularidade externa, não haveria adaptação possível. A própria existência de organismos adaptados pressupõe uma ordem detectável.
Essa posição não implica infalibilidade científica. Ao contrário, reconhece que os modelos produzidos pelo cérebro são aproximações progressivas. Cada paradigma científico representa um grau de resolução maior na leitura da estrutura do real. A história da ciência mostra uma trajetória cumulativa: da mecânica clássica à relatividade, da anatomia macroscópica à biologia molecular, da observação comportamental à neuroimagem funcional. Cada avanço não substitui completamente o anterior, mas amplia a capacidade explicativa.
Portanto, sob uma perspectiva neurocientífica realista, a ciência pode ser entendida como o processo pelo qual cérebros humanos, biologicamente limitados porém plasticamente adaptáveis, refinam progressivamente suas representações de uma ordem preexistente. Não criamos as leis da natureza; construímos descrições cada vez mais precisas delas. Somos, em termos cognitivos, sistemas que decodificam gradualmente uma arquitetura que já estava inscrita na própria estrutura do mundo.
A atividade científica, assim, não é um ato de invenção ontológica, mas de revelação progressiva mediada por inferência neural, validação empírica e correção sistemática de erro.
Dr. Eduardo Garcia Campos: Advogado e Neurocientista.

